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23/03/10 - Mecanismos da Síndrome Metabólica na Andropausa

O diagnóstico da andropausa, ou hipogonadismo masculino tardio, deve ser realizado pela associação de um quadro clínico compatível com comprovação laboratorial em mais de uma ocasião(1). No quadro clínico o sintoma mais proeminente é a redução da libido (2), acompanhada de queixas inespecíficas como cansaço, depressão leve, diminuição de massa e força muscular, e disfunção erétil, que podem decorrer de outras causas.

 

A testosterona circula sob três formas: livre (TL), ligada à SHBG ou à albumina. Apenas a testosterona livre e a ligada à albumina são capazes de atuar no receptor androgênico, sendo a soma de ambas considerada como testosterona biodisponível (TBD). A partir dos 40 anos ocorre, a cada ano, uma redução de 1,2% da TL e de 1% da testosterona ligada à albumina (3,4). No entanto, como os níveis de SHBG aumentam com a idade, os valores de testosterona total (TT) permanecem estáveis até por volta de 50 - 55 anos e a partir de então também começam a se reduzir a uma taxa entre 0,4% (4) e 0,85% por ano (5). Por isso, o diagnóstico laboratorial do hipogonadismo masculino tardio (andropausa) é mais preciso através da TL, preferencialmente calculada pela fórmula de Vermeulen, tendo-se as dosagens da TT, SHBG e albumina. A dosagem da TL por radioimunoensaio não é confiável e a da TT em homens idosos pode não refletir adequadamente o status androgênico (6). Um calculador automático de TL e TBD encontra-se no site da International Society for the Study of the Aging Male (ISSAM), em http://www.issam.ch/freetesto.htm.

Diante das várias alterações causadas pela queda da testosterona em homens, destacam-se as mudanças na composição corporal. O efeito da testosterona na massa muscular é bastante conhecido: sua evidência mais clara ocorre na puberdade, quando homens sob influência de níveis crescentes desse hormônio sofrem um incremento de massa muscular, enquanto as mulheres ganham uma quantidade maior de gordura. Esse processo acaba por discernir padrões distintos de composição corporal definidos como andróide, para eles, e ginecóide para elas. Essa diferença permanece por toda vida reprodutiva, atenuando-se com a senilidade, quando diminuem os níveis de esteróides sexuais em ambos os sexos. No envelhecimento, paralelo à queda da testosterona, há uma diminuição de massa magra e aumento, proporcional ou absoluto, da massa gorda. Recentemente diversos trabalhos têm demonstrado uma ocorrência aumentada de adiposidade central e síndrome metabólica em homens com hipogonadismo masculino tardio (7-10).

Hipogonadismo masculino e aumento de tecido adiposo, especialmente visceral, parecem se retroalimentar por vários mecanismos e eventualmente pode ocorrer progressão para síndrome metabólica. Um estudo australiano, que avaliou 195 homens com 70 anos ou mais, evidenciou relação inversa entre níveis de TT ou TL e circunferência abdominal (11). Nosso grupo, ao analisar o ponto de corte de maior ou igual a 102 cm para circunferência abdominal, observou um risco de 2,6 vezes para hipogonadismo em homens acima de 50 anos(12).

O hipogonadismo que ocorre em pacientes com obesidade central pode ser explicado por alterações no eixo gonadal decorrentes da hiperinsulinemia. Na obesidade generalizada, bem como na obesidade central com resistência insulínica, está descrita redução da secreção de testosterona mediante ação da leptina e da insulina em receptores específicos nas células de Leydig(13), o que resultaria em diminuição tanto da testosterona total como da fração livre. Além disso, o excesso de tecido adiposo relaciona-se a um aumento da atividade da aromatase, que atua na conversão periférica de testosterona para estradiol. Há evidências de ação importante do estradiol e da leptina na retroalimentação hipotálamo-hipofisária do eixo gonadal masculino, contribuindo para o hipogonadismo por inibirem a liberação do LH(14).

Por outro lado, níveis baixos de androgênios parecem promover obesidade central e piora da resistência à insulina em homens (15); este efeito ocorre, possivelmente, por efeito direto em células musculares e adiposas através da liberação da supressão de expressão dos receptores estrogênicos beta, e consequente "downregulation" do GLUT-4(16). Diminuição da massa muscular e, portanto, da taxa metabólica basal são fatores contribuintes para manutenção e ganho de massa gorda nos pacientes hipogonádicos(17). Evidências demonstram que o tratamento do hipogonadismo, com o reestabelecimento de níveis fisiológicos de testosterona, melhora a sensibilidade à insulina, aumenta a massa magra e reduz a massa gorda, o IMC e o índice cintura-quadril, melhorando vários componentes da síndrome metabólica(18).

 

Fonte: http://www.abeso.org.br/pagina/265/mecanismos-sm.shtml